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Igreja Matriz de São Vicente de Paio Mendes

 
 

Ficha Técnica
 
 
Característica Arquitectura Religiosa

Classificação Igreja
 
Localização Paio Mendes
 
 
Especialista Dr.ª Ana Torrejais
 
Morada Freguesia de Paio Mendes
 
Referência a_Paio_39
 
Propriedade Bispado de Coimbra

Enquadramento A igreja matriz de São Vicente localiza-se no centro do lugar de Castelo de Paio Mendes. É rodeada por um amplo adro murado, no qual foi edificado um coreto, bem como um telheiro que serve de apoio à realização dos festejos anuais em honra do santo padroeiro.

Notícias Históricas Segundo António Baião, a descrição da primitiva igreja de Paio Mendes consta de um tombo da Vila de Dornes datado de 1607, o qual refere que a capela-mor do dito templo tinha 12 côvados de comprimento e outros 12 de largura, sendo forra a tábuas de castanho; dela se passava para a sacristia, guarnecida de armários de castanho. Por sua vez, o corpo da igreja tinha de comprimento 36 côvados e de largura 18, era coberto de telha vã e estava por lajear. Na empena da parede da porta principal possuía um campanário com o seu pequeno sino de metal. Para além disso, pelo interior, mais concretamente no altar de São Francisco, existia a seguinte inscrição, hoje desaparecida, reveladora do nome dum instituidor da capela vinculada: «Sepultura de Manoel Vas e de sua mulher Maria Mendes e de seus descendentes. Anno de 1657».
De acordo com as Memórias Paroquiais de 1758, por essa mesma altura a Igreja de Paio Mendes possuía cinco altares: «de S. Vicente, de Nossa Senhora do Rozario, do Espirito Santo, do Senhor Jezus e de S. Francisco; não tem naves nem irmandades».
Actualmente, preserva-se na frontaria do edifício uma lápide com a seguinte inscrição: «O relógio carrilhão electrónico desta igreja paroquial de Paio Mendes é oferta dos pais do falecido estudante Camilo Manuel Ferreira Fidalgo. Saudosa memória e perpétua homenagem de seus pais. 27/4/1958

Descrição Arquitectónica A igreja de São Vicente remonta, muito provavelmente, ao ano de 1518, de acordo com uma antiga data inscrita num portal, hoje desaparecido. Porém, actualmente, o templo já nada conserva do seu traçado arquitectónico primitivo pois, ao longo dos séculos, foi sendo sucessivamente remodelado por várias campanhas construtivas, uma das mais importantes desenvolvida no ano de 1617, e cuja datação aparece inscrita num dos esboços de Alfredo Keil referentes a esta igreja. Aos dias de hoje chegou uma estrutura eclética, de clara inspiração maneirista, sobretudo na disposição dos espaços e volumes, cuja organização obedece à tradicional planimetria longitudinal de nave única. A frontaria, à semelhança da maioria das igrejas paroquiais estudadas, é constituída por um simples portal rectangular, a que se sobrepõe uma janela. Termina a fachada num empena triangular, encimada pela cruz de Cristo, mas interrompida do lado esquerdo pelo volume avançado de uma torre sineira, constituída por um único registo superior onde se rasgam quatro campanários. Acede-se a esta torre, provida de cobertura piramidal, por um lanço de escadas que se desenvolve na sua fachada nascente. Quanto a outras massas salientes do corpo central, refiram-se as duas salas de sacristia que, após cada um dos respectivos portais laterais, se destacam nas fachadas norte e sul do templo, ambas dotadas de cobertura em telhado de uma única água, enquanto que na nave essa cobertura é de duas águas.
Pelo interior, iluminado por duas janelas rectangulares em cada uma das laterais, o pavimento é recoberto a mosaico cerâmico, existindo um passadiço central lajeado que se desenvolve desde a entrada principal até à capela-mor. Acede-se a este espaço por meio de um arco cruzeiro de volta perfeita; no entanto, a cantaria interrompida ao nível da chave do arco sugere que a cobertura da nave central terá descido. Esta é constituída por três planos, não madeirados, enquanto que na capela-mor é abobadada.

Património Integrado Como em qualquer igreja paroquial, também o interior da matriz de São Vicente de Paio Mendes é constituído por vários altares, consagrados a diferentes oragos, e que se dispersam pelas laterais, arco cruzeiro e capela-mor do templo. Assim sendo, e ao nível das laterais, existem dois altares, colocados frente a frente, e que se aproximam na sua organização retabular. Ambos são constituídos por um nicho central que se rasga na parede de adossamento, emoldurado por um arco de volta perfeita executado em cantaria. No altar da lateral sul, este arco é ainda enquadrado por um friso entablado que se ergue sobre duas pilastras. Outro factor de aproximação diz respeito ao revestimento azulejar que preenche o frontispício de ambos os altares, e que se apresenta como uma continuidade do silhar aplicado aos muros interiores do templo: trata-se de um tapete de produção industrial, executado nos tons de azul e branco, e que obedece a um módulo de repetição de 2X2/2 unidades; por sua vez, no altar da lateral sul, o revestimento azulejar estende-se por todo o nicho central. Relativamente ao culto prestado em cada um deste altares, o da parede lateral norte é consagrado a Cristo Crucificado, imagem de vulto talhada em madeira posteriormente policromada, que se sobrepõe a uma pintura executada a óleo sobre tábua. A composição refere-se ao Suplício das Almas no Purgatório que, dirigindo os olhares para Jesus, mas também para Nossa Senhora e São Miguel que o ladeiam, aguardam a sua Salvação. Numa cartela localizada no limite inferior da composição encontra-se uma data referente ao ano de 1629, a par de uma inscrição cujo significado não é perceptível. Quanto ao altar da parede lateral norte, este é consagrado a São Francisco de Assis e à Santíssima Trindade (0.770m altura), tratando-se esta última imagem de uma obra esculpida em pedra e datada do século XVI, sendo, por essa razão, coetânea da época de fundação do templo.
Já no arco cruzeiro localizam-se outros dois altares, ambos executados em talha policromada, sendo o do lado do Evangelho consagrado a Nossa Senhora com o Menino, imagem de roca de grandes dimensões, enquanto que no do lado da Epístola é cultuado o Sagrado Coração de Jesus.
No retábulo-mor, executado em talha dourada e policromada, apenas figura uma recente imagem de São Vicente, já que os padroeiros originais - São Vicente e São Sebastião, obras datadas do século XVI - foram furtados no ano de 2005. A imagem primitiva de São Vicente era esculpida em pedra e media 1m de altura. O espaço da capela-mor é ainda decorado, ao nível da abóbada, por uma pintura mural alusiva ao padroeiro.
Por fim, devem ainda de ser referidas duas obras de cantaria que se encontram no interior deste templo. A primeira, localizada na parede lateral norte, diz respeito a um púlpito, cujo cálice cilíndrico parte de um colunelo provido de anel que serve de pé; a segunda encontra-se na sala de sacristia sul, e consiste num pequeno lavatório renascentista que apresenta talhada, de forma bastante rude, a imagem de um querubim.
De acordo com o Inventário Artístico de Portugal, integra o espólio deste templo uma Cruz Processional (1.020m altura) de prata do século XVI, com ornamentos gravados no estilo da época, a bola ou nó decorada com cabeças de anjo e os remates da haste e braços torneados delicadamente; porém, a imagem de Cristo que está aposta na Cruz é moderna.

Estado de Conservação Edifício reabilitado, que goza de manutenção regular, pelo que, aparentemente, o estado de conservação do imóvel e do correspondente património integrado revela-se estabilizado. Porém, a tábua correspondente ao Suplício das Almas no Purgatório apresenta-se bastante enegrecida, enquanto que na pintura da abóbada da capela-mor são visíveis algumas manchas decorrentes de pequenas infiltrações de humidade que se processam a partir da cobertura.

Grau 4 - Edifício reabilitado ou reconstruído.

Intervenções Realizadas Edifício remodelado no decurso de várias campanhas construtivas, a mais importante das quais operada no ano de 1617. Seguiu-se uma nova remodelação no ano de 1926.
 
 

Bibliografia
 
ALMEIDA; Dr. José António Ferreira de (Coord.); Tesouros Artísticos de Portugal; Lisboa; Selecções do Reader’s Digest; 1976; página 429

BAIÃO; António; Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere; Imprensa Nacional; Lisboa; 1918; página 162, 163, 231 e 332

CARDOSO; Padre Luis; Diccionario Geografico (...); 44 Volumes; Biblioteca Real; 1758-1832; Volume 27; Nº 26; Fólios 153 a 156

COSTA; Padre António Carvalho da; Corografia Portugueza (...); Tomo III; Lisboa; Oficina Real Deslandesiana; 1712; Fólios

LEAL; Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho; Portugal Antigo e Moderno (...); 11 Volumes; Lisboa; Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia , 1873 a 1882; Volume 6; Página 418

MALHEIRO; Bartolomeu de Macedo; Notícias das Igrejas do Bispado de Coimbra; Academia Real da História Portuguesa; 1726; Fólios 155 (v) a 156

SEQUEIRA; Gustavo de Matos (dirc.); Inventário Artístico de Portugal; Volume III: Distrito de Santarém; Lisboa; Academia Nacional de Belas Artes; 1949; Página 44