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Igreja Matriz de São Miguel de Ferreira do Zêzere

 

 

Ficha Técnica
 
 
Característica Arquitectura Religiosa

Classificação Igreja

Localização Ferreira do Zêzere

Especialista Dr.ª Ana Torrejais
 
Morada Freguesia de Ferreira do Zêzere

Referência a_Zezere_28

Propriedade Bispado de Coimbra

Enquadramento A Igreja de São Miguel localiza-se próximo do centro histórico da Vila de Ferreira do Zêzere. É rodeada por um amplo adro no qual foi construída a casa paroquial. Por detrás do templo ergue-se a Quinta do Adro, edifício habitacional setecentista.

Notícias Históricas As Memórias Paroquiais de 1758 referem que, por esta altura, tinha a igreja paroquial de São Miguel «sinco altares, hum de S. Miguel e outro do Espirito Santo, outro de Nossa Senhora do Rozario, outro de Jezus e outro das Almas» e que, para além disso, «A igreja he de huma nave, tem duas Irmandades, huma do Senhor e outra das Almas». Este templo é igulamente citado pelo padre António Carvalho da Costa na sua Corografia Portugueza.
 
Descrição Arquitectónica A igreja de São Miguel obedece a uma planimetria de esquema longitudinal e nave única, dotada de cobertura em telhado de duas águas. A fachada principal, de traço claramente maneirista, é rematada por uma empena triangular desigual e apenas ostenta um portal de verga recta, a cujo entablamento se sobrepõe uma grande janela rectangular. Do lado direito, e saliente relativamente a esta fachada, foi adossada uma torre sineira, composta por dois registos, sendo o primeiro constituído, do lado nascente, por um lanço de escadas que permite aceder, simultaneamente, quer à torre, quer ao coro-alto que se ergue, no interior do templo, sobre o pórtico principal. Já o segundo registo é constituído por quatro arcos campanários, sendo o volume rematado por meio de uma cobertura piramidal, dotada de caleira provida de quatro goteiras.
Na lateral sul do templo, para além da torre sineira, destacam-se vários volumes, o primeiro dos quais corresponde a uma pequenina capela consagrada a Nossa Senhora de Fátima que abre para o interior da Igreja; adossada a esta dependência desenvolve-se uma sala de sacristia, iluminada por meio de duas janelas rectangulares. São estas massas dotadas de cobertura em telhado de duas e uma única água, respectivamente. Entre a torre campanária e a capelinha de Nossa Senhora de Fátima rasga-se um portal lateral rectangular, ao qual se sobrepõe uma janela.
Por sua vez, ao longo da lateral norte da igreja de São Miguel desenvolve-se um amplo corredor de sacristia dotado de várias aberturas para o exterior, entre as quais duas portas laterais, sabendo que apenas uma delas permite aceder directamente ao interior do templo. Incorpora este volume o baptistério e a capelinha consagrada ao Senhor dos Passos, dependências que se abrem para a nave da igreja. A cobertura desta massa é em telhado de uma única água e resulta de um prolongamento da cobertura do corpo central do edifício religioso.
Pelo interior, a igreja de São Miguel apresenta cobertura madeirada e de três planos, sendo o pavimento lajeado. O acesso à capela-mor é realizado por intermédio de um arco cruzeiro de volta perfeita e desnível de dois degraus. Também este espaço é iluminado por meio de uma janela localizada na lateral direita. O pavimento é igualmente lajeado, mas a cobertura é em abóbada de caixotões.

Património Integrado A igreja de São Miguel é um dos templos do concelho de Ferreira do Zêzere que apresenta maior riqueza e diversidade decorativa. Pelo seu interior, disseminam-se sete altares, três capelas, um púlpito, um baptistério, para além de várias obras escultóricas e pictóricas.
Quanto ao baptistério, localizado na lateral norte, este é dotado da correspondente pia baptismal, obra executada em cantaria calcária, provida de uma taça gomada que se desenvolve a partir de um colunelo dotado de anel. Nesta dependência, localizam-se igualmente um pequeno altar de cantaria e uma imagem de Santa Isabel. Por sua vez, o púlpito, adossado à mesma parede lateral, ostenta um cálice executado em talha policromada, que se desenvolve a partir de uma base pétrea.
Relativamente aos altares que adornam a nave central do templo, todos eles são semelhantes entre si e dotados de retábulos executados em talha policromada, nos tons de dourado e branco, surgindo por vezes alguns marmoreados. Na lateral norte, e caminhando a partir da entrada principal, destacam-se o altar de Nossa Senhora das Dores, imagem de roca de grandes dimensões e carácter pietista, vestida de tons púrpura. Segura nas mãos um lenço alvo, pronto a enxugar o rosto martirizado de Jesus, ao mesmo tempo que a expressão da face da Santa é reveladora de todo o sofrimento que sente. A imagem de Nossa Senhora das Dores acompanha geralmente a do Senhor dos Passos, que na igreja de São Miguel se conserva numa capelinha própria. Por sua vez, na lateral sul, justapõem-se aos altares anteriores a capelinha de Nossa Senhora de Fátima e um altar consagrado a Cristo crucificado, imagem de vulto executada em madeira policromada.
No arco cruzeiro localizam-se outros dois altares. O do lado do Evangelho é consagrado a Nossa Senhora com o Menino, obra escultórica barroca de produção popular, talhada em madeira posteriormente policromada. Nossa Senhora, coroada, apresenta-se como uma mulher de porte robusto, mãos largas e face redonda, enquadrada por uma farta cabeleira que cai sobre os ombros. Nos braços segura o Menino, que carinhosamente lhe afaga o pescoço, mas cujo corpito não deixa de revelar alguma incorrecção anatómica. As dificuldades sentidas pelo escultor na produção desta obra, revelam-se ainda na execução dos panejamentos, tratados com pouca plasticidade, mas que não deixam de se apresentar ricamente adornados: à túnica branca sobrepõem-se pequenas rosas, enquanto que o manto azul é decorado por estrelas douradas, numa alusão ao firmamento. Já do lado da Epístola, destaca-se um altar consagrado ao Sagrado Coração de Jesus, cuja imagem representa Cristo Ressuscitado, revelando o coração vivo, ao mesmo tempo que as mãos do Salvador deixam perceber as chagas da crucificação.
Relativamente à capela-mor, esta é decorada por um magnífico retábulo executado em talha dourada barroca, cujo trabalho escultórico progride, de forma singela, pelas nervuras e sanca da abóbada. É o altar-mor consagrado ao arcanjo São Miguel que, vestindo como milícia romana, ostenta nas mãos uma espada e uma balança, e a São Brás, escultura de pedra do século XVI (0.770m altura). Os caixotões da abóbada são decorados a fresco, com símbolos alusivos à Paixão de Cristo e à Ladainha da Virgem, enquanto que o extradorso do arco cruzeiro revela pinturas representativas dos Evangelistas.
Relativamente às restantes obras pictóricas constantes do espólio da igreja de São Miguel, existem variados e interessantes exemplares de pinturas executadas a óleo sobre tela, as quais foram produzidas em diferentes épocas e com maior ou menor grau de erudição. Destaca-se, em primeiro lugar, uma Última Ceia, composição produzida no século XVIII e de claro anacronismo, já que a cena se desenvolve no interior de uma rica sala de jantar burguesa, sendo a refeição assistida por uma criada, que transporta uma malga de sopa fumegante. Cristo, juntamente com os seus doze apóstolos, senta-se ao redor de uma mesa redonda, ao centro da qual repousa um pão dentro de uma travessa, alimento que é distribuído pelos comensais.
De grande erudição é a Aclamação de Nossa Senhora; nesta composição, Virgem Maria, rodeada pelos Evangelistas e segurando nos braços o Menino, paira sobre uma nuvem que, transportada por um coro de Anjos, desce do Paraíso. Contemplam-na duas personagens, uma feminina e outra masculina, que convidam o observador a participar da experiência divina.
De carácter naïf é uma outra obra representativa de São Miguel no Purgatório, a qual manifesta grandes dificuldades de execução técnica e composicional. Os elementos representados são os recorrentes desta temática: São Miguel, vestido como militar romano e segurando nas mãos uma espada e uma balança, pesa as almas do Purgatório, enquanto que a Pomba do Espírito Santo desce do Paraíso para recolher os afortunados. Em minha opinião, a representação de São Miguel constante desta composição seguiu como modelo a própria imagem padroeira, uma vez que a posse e atributos do arcanjo se repetem nas duas obras.
Existem ainda três composições, de recente produção, alusivas a São Brás (lateral direita), São Miguel no Purgatório (Capela-mor, lado do Evangelho) e a São Pedro (Capela-mor, lado da Epístola).
Por fim, deve ser referido que, numa das últimas campanhas de intervenção neste templo, foi aplicado às paredes interiores um silhar de azulejos de produção industrial, que dificilmente se enquadra no esquema decorativo original. Apresenta o referido silhar uma altura de 8 azulejos, em tons de azul e branco, os quais se repetem de acordo com um módulo de 2X2/2 unidades.
De acordo com o Inventário Artístico de Portugal, guardam-se na sacristia do templo: um Santo Antão de pedra do século XVI (0.570m altura); uma Santíssima Trindade, igualmente esculpida em pedra e da mesma época (0.690m altura); um Prato de Oferta (0.370m diâmetro), de latão, com a habitual inscrição em redor e ao centro, em relevo, a imagem da Virgem.; uma custódia de prata dourada, imitação de peça antiga, com aproveitamento de peças velhas; cinco cadeiras de couro, do século XVIII, com espalda e fundo gravados.

Estado de Conservação A igreja de São Miguel trata-se de um edifício reabilitado, modificado ao longo dos tempos por várias campanhas de obras. Goza de manutenção regular, revelando-se o estado de conservação do imóvel e do correspondente património integrado, aparentemente estabilizado. Porém, as pinturas mais antigas, executadas a óleo sobre tela - como sejam a Última Ceia, o São Miguel no Purgatório e a Aclamação da Virgem -, revelam-se bastante enegrecidas, detectando-se algumas situações pontuais de desgaste e destacamento pictóricos.

Grau 4 - Edifício reabilitado ou reconstruído.
 
 

Bibliografia

ALMEIDA; Dr. José António Ferreira de (Coord.); Tesouros Artísticos de Portugal; Lisboa; Selecções do Reader’s Digest; 1976; página 265

CARDOSO; Padre Luis; Diccionario Geografico (...); 44 Volumes; Biblioteca Real; 1758-1832; Volume 15; Nº 52; Fólios 319 a 324

COSTA; Padre António Carvalho da; Corografia Portugueza (...); Tomo III; Lisboa; Oficina Real Deslandesiana; 1712; Fólios

LEAL; Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho; Portugal Antigo e Moderno (...); 11 Volumes; Lisboa; Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia , 1873 a 1882; Volume 3; Página 174 e 175

SEQUEIRA; Gustavo de Matos (dirc.); Inventário Artístico de Portugal; Volume III: Distrito de Santarém; Lisboa; Academia Nacional de Belas Artes; 1949; Página 35 e 36