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Igreja Matriz de Santo Aleixo do Beco

 
Igreja Matriz de Santo Aleixo do Beco
 

Ficha Técnica
 
 
Característica Arquitectura Religiosa

Classificação Igreja
 
Localização Beco
 
Especialista Dr.ª Ana Torrejais
 
Morada Freguesia do Beco
 

Referência a_Beco_15
 
Património Classificado IIP Dec.Nº 32973, DG63 de 18 de Agosto de 1943

Propriedade Bispado de Coimbra

Enquadramento Localiza-se a igreja de Santo Aleixo no centro do lugar do Beco, sendo o portal principal antecedido por escadaria de um lanço. O espaço envolvente é ocupado pelo respectivo adro paroquial, onde foi construído um telheiro e um pequeno coreto. Aqui são realizadas as festas anuais em honra do santo padroeiro.

Notícias Históricas De acordo com António Baião, a fundação desta igreja remonta a 1510, ano em que os moradores do lugar do Beco pediram ao bispo de Coimbra, D. Jorge de Almeida, com consentimento de El-Rei D. Manuel, licença para ouvir os ofícios divinos e receber os sacramentos numa igreja que à sua conta tinham mandado erigir. Foi-lhes concedida essa licença, ficando por fregueses dela tão somente os moradores do Beco, a cujo cargo ficou a sua fábrica e conservação, assim como o pagamento do capelão, que tinha por dever não só dizer missa nos domingos e dias santos, como também três vezes por semana e fazer os ofícios do Natal, Endoenças, e Ramos. A renda do pé do altar pertencia ao vigário de Dornes. Por capelão foi instituído um clérigo secular, Duarte Dias, que renunciou anos depois ao seu lugar, sendo substituído por Frei Jorge Dias, o qual durante trinta e cinco anos paroquiou a igreja do Beco. Os seus restos foram sepultados na capela-mor, cujo epitáfio é o seguinte: Sepultura de Jorze Dias, vigario que foi 35 annos e falleceu a 6 d’Outubro de 1584.
O tombo das Notícias das Igrejas do Bispado de Coimbra, faz referência à igreja recém-fundada, a qual era de invocação de Santo Aleixo: «Era bem madeirada de castanho e bem telhada, tinha de comprido quatro braças e oito palmos, e de largura três braças; o arco de cruzeiro era de pedra lavrada, tendo à direita o altar do Espírito Santo e à esquerda o de Nossa Senhora, com imagens de vulto. No altar-mor estava a imagem de Santo Aleixo, pequena pedra de vulto, e era forrado de azulejos muito bons».
Por sua vez, das Memórias Paroquiais consta que o referido templo apresenta «sinco altares, hum das Almas, outro do Senhor Jesus, outro da Senhora do Rozario, do Espirito Santo, Santo Antonio e de Santo Aleyxo, orago da igreja. Com tres naves, com oito columnas de pedras de cantaria, com huma Irmandade do Santissimo Sacramento».
Para António Baião, a escolha do orago resulta de uma homenagem ao fundador da igreja, que o historiador identifica como sendo Frei Aleixo de Cotrim, o qual deixou vinculado ao seu nome muitas obras escritas. Era este Aleixo Cotrim irmão consanguíneo de Luís Cotrim de Vasconcelos, figura de importância na região.

Descrição Arquitectónica Fundada no século XVI, a igreja de Santo Aleixo do Beco apresenta uma estrutura eclética, resultado das diferentes campanhas de obras executadas em épocas distintas. Acompanha, assim, várias manifestações estilísticas, que se manifestam sobre uma mesma base estrutural gótico-renascentista. Assim sendo, e se a nível da planimetria este templo evidencia ainda uma tipologia que se insere na arquitectura gótica, o tipo de suportes utilizados, bem como a respectiva organização dos volumes, são já renascentistas.
A planimetria do imóvel obedece a um esquema longitudinal, composto por três naves de cinco tramos cada uma. As naves laterais, ligeiramente mais baixas que o corpo central, possuem cobertura em telhado de uma água, enquanto que a nave central apresenta cobertura em telhado de duas águas.
A fachada principal, rematada por uma simples empena triangular, trata-se de uma reconstrução do século XVII. De traço claramente maneirista, apenas ostenta um portal de verga recta, a cujo entablamento se sobrepõe uma grande janela rectangular. Do lado esquerdo foi adossada uma torre sineira de dois registos, sendo o primeiro constituído por três frestas quadrangulares sobrepostas, e o segundo por quatro campanários, um em cada face da torre. É este volume rematado por meio de uma cobertura piramidal. Para além do portal da fachada principal, existem mais dois, localizados em cada uma das fachadas laterais.
No interior, o espaço tripartido é dividido por meio de arcos de volta perfeita apoiados em colunas toscanas. Sobre a entrada principal, eleva-se um coro alto, ao qual se acede por meio de um lanço de escadas colocado do lado direito da entrada. Existe neste coro um baixo relevo datado do século XVI, esculpido numa placa de madeira de pequenas dimensões, o qual representa o tema do Calvário. Por sua vez, do lado esquerdo da entrada, localiza-se o baptistério, dotado da correspondente pia baptismal. É esta uma obra do século XVI, de aspecto arcaico, constituída por uma taça lavrada em estrias oblíquas, que se desenvolve a partir de um pilar oitavado desprovido de pé ou anel.
O tecto da nave central é madeirado e de três planos, enquanto que o tecto das naves laterais é apenas de um plano. Relativamente ao pavimento, este é recoberto por mosaico cerâmico, existindo um passadiço lajeado que se prolonga desde o portal principal até à capela-mor. O acesso a esta capela, iluminada por meio de uma fresta lateral que se rasga no lado da Epístola, é feito por intermédio de um arco cruzeiro de volta perfeita e um desnível de dois degraus. É este espaço coberto por meio de uma abóbada com trinta e cinco caixotões, sendo o pavimento lajeado. Na parede do lado do Evangelho, rasga-se a entrada de acesso à sacristia.
Perto da capela-mor, do lado do Evangelho e adossado ao fuste da última coluna, encontra-se um púlpito de cálice balaustrado.

Património Integrado Existem na igreja matriz do Beco vários altares, construídos em épocas distintas e consagrados a diferentes oragos. Assim sendo:
Na parede lateral sul, existe um altar maneirista esculpido em pedra, o qual conserva vestígios de policromia na cantaria, e em cujo lintel se encontra a seguinte inscrição: Esta capela mandaram fazer Bertolameu Dias e Leonor Mendes sua mulher à sua própria custa para eles e seus herdeiros no ano de 1602. Neste altar foi inserido um retábulo em talha policromada, cujo nicho central é ocupado pela imagem de Nossa Senhora de Fátima. Para além desta, existe ainda neste altar uma imagem de roca de pequenas dimensões, representativa de Nossa Senhora da Conceição.
Na parede lateral norte, existem, por sua vez, dois altares. O primeiro é ocupado por uma pintura retabular, executada a óleo sobre tela e de traço claramente popular, na qual se encontra representado S. Miguel pesando as almas no Purgatório. Aos afortunados, espera-lhes o Paraíso, no qual se encontram Cristo, Deus-Pai e a Pomba do Espírito Santo. Da imaginária presente neste altar, toda ela executada em pedra, destaque para Nossa Senhora do Leite (0.855m altura), datada do século XVII, Santo António com o Menino (0.945m altura) e São Pedro (que mostra um cutelo aludindo ao corte da orelha no horto), todas elas de manifesta produção popular.
O segundo altar, dotado de retábulo executado em talha policromada, é consagrado a Cristo Morto, cuja imagem, de grandes proporções, se conserva no interior de uma vitrina. Próximo deste altar, encontra-se uma pequenina imagem de roca representativa do Senhor dos Passos.
Ainda no arco cruzeiro existem outros dois altares, cujos retábulos, executados em talha policromada, são em tudo idênticos aos até agora referidos. O do lado do Evangelho é consagrado ao Sagrado Coração de Jesus, cuja imagem é ladeada, à esquerda, por S. Brás e, à direita, por Santa Luzia (0.740m altura), escultura de madeira do fim do século XVI com o cabelo feito de pasta.
O do lado da Epístola é consagrado a Nossa Senhora da Conceição, imagem de roca de grandes dimensões, ladeada por Santa Ana e por São Joaquim. Também neste altar se encontram duas pequenas imagens quinhentistas e esculpidas em pedra, representativas do orago Santo Aleixo (0.815m altura) e de Santa Sabina, mulher de Santo Aleixo (0.900m altura).
A capela-mor encontra-se belissimamente decorada, a começar pelo altar de talha dourada da primeira metade do século XVIII, no qual se encontram duas pequeninas imagens representativas de S. Sebastião e de S. Francisco de Assis. Nos caixotões da abóbada, decorados a fresco, foram reproduzidos rendilhados e, por sua vez, as paredes encontram-se revestidas por um belíssimo forro azulejar de 43 unidades de altura.
Trata-se de um conjunto de doze painéis, executados nos tons de azul e branco, separados entre si por um emolduramento de folhagens e anjinhos. Repousa a composição sobre um silhar de anjinhos trombeteiros, de execução caracteristicamente barroca. Do lado do Evangelho, figuram-se passos da Vida de Abraão e, entre os painéis, espelhou-se nos azulejos a janela que lhe fica fronteira: Abraão vence os reis do Oriente; A visita dos três anjos; Um anjo do Senhor socorre Ismael; O sacrifício de Isaac; Abraão sacrifica um cordeiro. Do lado da Epístola, os quadros representam passos da Vida de Moisés: A Vocação de Moisés; O regresso de Moisés ao Egipto; Moisés faz brotar água da rocha; Moisés recebe as Tábuas da Lei; A Batalha contra os Amalecitas.
Santos Simões data estes azulejos de entre 1730 e 1740 e coloca a hipótese do seu autor ter sido o mesmo que pintou os azulejos da Capela da Casa do Dr. José Real e da Capela da Casa dos Tinalhas, ambas localizadas no lugar da Frazoeira, Freguesia de Dornes. De acordo com o perito, este conjunto de obras poderá inserir-se na produção da Escola dos Bernardes, a qual deve o seu nome a António de Oliveira Bernardes, um dos mais importantes mestres azulejadores do século XVIII. Para além disso, António Baião refere que são os azulejos do Beco perfeitamente idênticos aos que se vêem na matriz de Figueiró dos Vinhos, consagrada a São João Baptista, os quais têm a data de 1716.
O estudo compositivo destes quatro conjuntos de painéis - Igreja de Santo Aleixo, Igreja de São João Baptista, Capela da Casa do Dr. José Real e Capela da Casa dos Tinalhas - , permitiu detectar a existência de um traçado erudito comum, que obedece às seguintes características:
A pincelada solta e leve com que o autor executa as composições, conferindo especial cuidado aos drapeamentos dos panejamentos, ao tratamento filigranado dos elementos vegetalistas e ao desenho ondulante dos cabelos e barbas das personagens;
O esquema perspéctico encontra-se muito bem elaborado, servindo-se o azulejador de um “jogo” de sombras e luzes, conseguido pela utilização alternante entre os azuis de croma mais ou menos intenso, o que permite acentuar a noção de profundidade;
No plano fundeiro, multiplicam-se, muitas vezes, paisagens bucólicas de pequenos povoados, onde o autor coloca figurinos campestres, sendo muito comum o recurso à imagem do pescador ou do pastor, que chega a isolar em alguns painéis;
No entanto, e sempre que tal é possível, observa-se igualmente, nesses planos fundeiros, um desdobramento da acção decorrente no tema religioso principal.
Já na sala de sacristia, conserva-se um armário de castanho, de portas lavradas do século XVII, em cujo interior foi colocado, actualmente, o quadro contador de electricidade do edifício. Por fim, numa pequena arrecadação improvisada sob um vão de escada, conservam-se três importantes imagens esculpidas em pedra: um São Sebastião (0.715m altura), de produção popular quinhentista, que conserva alguns vestígios de policromia e que era da ermida de São Sebastião do Beco; uma Santíssima Trindade, de igual produção popular, datada do século XVI; um Santo António com o Menino (0.815m altura), que conserva igualmente alguns vestígios de policromia e que revela uma modelação mais erudita, bem como uma tímida influência oriental, quer ao nível do fácies do santo, quer na posição búdica em que o Menino se senta a orar sobre o livro que Santo António segura nas mãos. Esta última imagem veio da ermida de Santo António de Ribelas.

Estado de Conservação Desde o século XVII, que a Igreja de Santo Aleixo tem sido alvo de várias obras de transformação. Por sua vez, a partir de 1963, a DGEMN pôs em prática várias campanhas de manutenção do estado de conservação deste imóvel e correspondente património integrado, as quais se prolongaram até ao ano de 1974. Nos últimos tempos, semelhantes trabalhos têm vindo a ser desenvolvidos por uma activa Comissão Fabriqueira. Assim sendo, e em virtude das várias intervenções realizadas ao nível da cobertura e pavimento, não são registadas situações alarmantes de infiltrações de humidade, susceptíveis de comprometer o estado de conservação do património integrado.

Cantaria: Pelo exterior, como pelo interior, a cantaria deste imóvel é executada em pedra calcária, parecendo estabilizado o estado de conservação dos vários elementos. Porém, no exterior, a cantaria do portal principal revela, na ombreira direita, alguma erosão, enquanto que o lintel apresenta várias zonas de fractura.

Imaginária: A igreja de Santo Aleixo é dotada de um amplo conjunto de imagens, executadas em diferentes materiais, e que acompanham várias épocas de produção. Contudo, os exemplares revelam, maioritariamente, uma execução popular, patente na dificuldade em ultrapassar a rigidez dos materiais pétreos, ou nas tão características figuras de roca, cujo corpo, produzido em madeira e articulado por meio de arames, é depois recoberto por roupinhas executadas à medida e fartas cabeleiras de fios verdadeiros. São, porém, as imagens mais antigas, executadas em pedra, aquelas que revelam um estado de conservação mais preocupante, e em que o registo policromo da superfície já se perdeu quase por completo. São ilustrativas desta situação, as imagens que se conservam na sacristia do templo, representativas de S. Sebastião e de Santo António com o Menino. Outras há, porém, que sendo igualmente antigas, se apresentam excessivamente repintadas, como é o caso da Nossa Senhora do Leite, de Santo António ou de São Pedro, existentes no altar consagrado a S. Miguel.

Talha: O estado de conservação da talha dos retábulos existentes no interior deste templo, revela-se aparentemente estabilizado. Em relação ao altar-mor, refira-se que, de 1971 a 1973, a DGEMN procedeu à consolidação e restauro do mesmo, o que incluiu a substituição, pintura e douradura das peças degradadas.

Pintura: As obras pictóricas existentes neste templo, resumem-se à tela pintada a óleo de S. Miguel no Purgatório e aos frescos dos caixotões da abóbada da capela-mor. Em ambos os casos, os danos causados pela humidade são evidentes: no S. Miguel, regista-se um enegrecimento geral da composição, sobretudo junto do limite inferior; na pintura executada a fresco, são visíveis algumas manchas de humidade, acompanhadas de destacamentos pontuais da camada pictórica.

Património Azulejar: De acordo com o Inventário do Património Arquitectónico realizado pela Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais, entre 1966 e 1968 a DGEMN procedeu a algumas intervenções de conservação e restauro nos revestimentos do interior da Igreja matriz do Beco. Embora a ficha consultada referente a este monumento não refira, pormenorizadamente, que tipo de intervenções foram realizadas é, no entanto, muito provável que se tenha intervido sobre o património azulejar existente. De resto, os painéis que revestem a capela-mor apenas evidenciam pequenas lacunas, ao nível do vidrado e da chacota, que parecem estabilizadas, não ameaçando novos destacamentos. Do mesmo modo, detectam-se algumas zonas de fractura já corrigidas por meio de colagem e preenchimento.
Recordo que, cerca de 10 anos mais tarde a DGEMN viria a intervir nos revestimentos azulejares da Igreja Matriz de Areias, tendo procedido à consolidação e substituição de alguns elementos mais degradados. É, por isso, bastante provável que tenha sido adoptado o mesmo procedimento na Igreja Matriz do Beco.
 
Classificação: Grau 3. Edifício que denuncia um estado de conservação razoável.

Intervenções Realizadas
 
 
Cronologia: 1963 / 1968 - arranjo das coberturas; 1971 / 1973 - consolidação e restauro do altar da capela-mor, incluindo substituição das peças degradadas, pintura e douradura das mesmas. Restauro de marcenaria e talha dos caixotões da abóbada da capela-mor; 1974 - instalação eléctrica.

Entidade responsável: Comissão Fabriqueira da Igreja de Santo Aleixo do Beco

Cronologia: 2001 - caiação exterior. Limpeza e impermeabilização de caleiras.
 
 

Bibliografia
 
ALMEIDA; Dr. José António Ferreira de (Coord.); Tesouros Artísticos de Portugal; Lisboa; Selecções do Reader’s Digest; 1976; página 134

BAIÃO; António; Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere; Imprensa Nacional; Lisboa; 1918; páginas 48, 49, 162 e 230. Em Apêndice, Documentos XIII: Visitação das Igrejas do Beco e Dornes (p.26)

CARDOSO; Padre Luis; Diccionario Geografico (...); 44 Volumes; Biblioteca Real; 1758-1832; Volume 6; Nº 72; Fólios 505 a 508

COSTA; Padre António Carvalho da; Corografia Portugueza (...); Tomo III; Lisboa; Oficina Real Deslandesiana; 1712; Fólios

LEAL; Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho; Portugal Antigo e Moderno (...); 11 Volumes; Lisboa; Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia , 1873 a 1882; 1º volume; Página 355

MALHEIRO; Bartolomeu de Macedo; Notícias das Igrejas do Bispado de Coimbra; Academia Real da História Portuguesa; 1726; Fólios 152 a 154

SEQUEIRA; Gustavo de Matos (dirc.); Inventário Artístico de Portugal; Volume III: Distrito de Santarém; Lisboa; Academia Nacional de Belas Artes; 1949; Página 39-40