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Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pranto de Dornes

 
 
 
Ficha Técnica
 
 
Característica Arquitectura Religiosa

Classificação Igreja
 
Localização Dornes
 

Especialista Dr.ª Ana Torrejais
 
Morada Freguesia de Dornes

Referência a_Dornes_24
 
Património Classificado Sim. IIP Dec.Nº 32973, DG175 de 18 de Agosto de 1943
 
Propriedade Bispado de Coimbra

Enquadramento A igreja de Nossa Senhora do Pranto, situada junto à albufeira e à torre de Dornes, ergue-se sobre um alto adro a que se tem acesso por uma escadaria de vários lanços. Perto localiza-se o cemitério paroquial.

Notícias Históricas Remonta ao século XIII o início da construção da Igreja de Nossa Senhora do Pranto, templo que, de acordo com a narrativa lendária, é coetâneo da fundação da vila de Dornes, mandada instituir sob o patrocínio da Rainha Santa Isabel. Tal acontecimento é-nos descrito por Carvalho da Costa na sua Corografia Portuguesa:
«Consta da antiga tradição, que sendo esta terra do dote da Rainha Santa Isabel, e assistindo em Coimbra, Corte então dos nossos Reis, tinha nestas partes por seu feytor a Guilherme de Pavia, homem de tanta virtude e justificada vida, que mereceo o nome de Santo. Era natural de hum lugar, que está no mesmo destricto e se chama o Albardão, onde vivia seu pay, o qual o creou tanto no temor de Deos, procurando instrui-lo em todos os bons costumes e santos exercicios, que sendo moço e não podendo obriga-Io a jejuar, para que forçosamente o fizesse o passara hum dia em hum barco, que tinha da outra parte do rio Zezere, para o ir buscar ás horas que lhe parecesse, e elle lançara a capa no rio, e sobre ella passara d’estoutra banda a pé enxuto.
Viveo este virtuoso varão junto de huma ermida do glorioso S. Guilherme, a qual estava contigua á estrada de Dornes, e ribeira do mesmo santo tomou o nome, de que já fizemos menção. Succedeo que algumas noytes da banda d’alem do rio Zezere, que então eram brenhas e matos muito espessos, ouviu huns gemidos muy dolorosos, os quaes se forão continuando por algum espaço de tempo; e indo Guilherme de Pavia a Coimbra deo conta á Rainha Santa d’esta novidade, a qual já por revelação divina sabia a causa, e lhe disse que buscasse no lugar onde ouvia os gemidos e que ahi acharia huma imagem da Virgem Maria Nossa Senhora com outra de seu Santissimo Filho morto em seus braços, o que elle fez, e entre huns matos, que estavão na aspera serra da Vermelha (que fica da outra banda do rio junto ao Casal de Villagaya, freguesia de Cernache do Bom Jardim e termo da Certã) achara escondida a admiravel e milagrosa imagem que collocou em huma pequena Igreja que a Rainha Santa mandou fazer sobre o penhasco, ficando dividida de huma torre antiga que alli estava e se diz fora obra dos mouros e hum curioso infere seria de Sertorio, que como fez o castello da Certã, faria tambem esta torre para sua segurança, por vir a estrada da Certãa ter a este sitio, servindo-he de ponte a barca de Dornes. Porém eu conjecturo ser fabrica dos Cavalleyros do Templo, que por aqui vierão descendo e fundarão o castello de Thomar e Almourol. Esta torre serve agora de estarem nella os sinos da Igreja de Nossa Senhora.
Concorreo de todas as partes circunvizinhas innumeravel gente a ver a novamente apparecida imagem, a quem derão a invocação de Santa Maria das Dores, e é piamente crivel viria tambem a Rainha Santa, a qual mandou fazer ao pé da Igreja a Villa que ordenou se chamasse das Dores; e talvez que por esta mesma causa a mandasse fazer mysteriosamente em cruz como está».
Porém, e de acordo com António Baião, as referências a Isabel de Aragão não podem ser verdadeiras, pois o antigo município já existia no ano de 1201 e as suas terras envolventes nunca pertenceram à Rainha Santa. O que é certo é que a imagem santa continuaria a operar os seus milagres pois, de acordo com o Santuário Mariano, «no ano de 1697 ou 1698, ouve huma grande praga de pulgão & lagarta, & tão grande que deyxava assolada as vinhas & searas. Acudirão muytos povos à Senhora do Pranto de Dornes & a todos remediou a Senhora misericordiosamente; & a Villa & o seu termo ficou tão privilegiada & illesa que se não vio em as novidades della nada destes crueis animalejos. E alguns que se virão foy nos matos & em cima dos sargaços & tojos & outras plantas silvestres, em que os animaes não tocão».
Mas, pondo de parte as lendas e recorrendo à documentação, esta refere que, por volta de 1201, no foral de Arega que D. Pedro Afonso (filho de el-rei D. Afonso Henriques) atribuiu à referida vila, aparece entre as testemunhas presentes um Dommus Fiiz prelatus a Dornas, o que permite presumir que, já naquela época, existiria pelo menos uma capelinha nesta vila. No entanto, a partir de 1374, surgem já referências a uma igreja de invocação a Nossa Senhora, a qual, talvez por efeito da sua ruína, foi em 1453 reedificada (total ou parcialmente) e substituida por outra, sob o mandado de D. Frei Gonçalo de Sousa, descendente de um filho de D. Afonso III e comendador-mor de Dornes. Assim o comprova o escudo de armas do clérigo e a inscrição gótica incisa numa lápide que se conserva à direita do portal principal. Consta desta inscrição o seguinte:
«Esta Igreja mandou fazer em louvor do Senhor Deos e da preciosa sua Madre Virgem Maria, o honrado cavaleiro Fr. Gonçalo de Sousa, vedor do senhor Infante D. Henrique e do seu concelho e seu alferes maior, comendador desta comenda e alcayde maior de Thomar, filho de Gonçaloannes de Sousa; a qual igreja se fez as suas próprias despezas por sua boa devoção, sem a elo sendo obrigado, e por memória mandou poer aqui estas suas armas. Deos por sua mercê lhe dê galardão de sua bemfeytoria. Amen. Era do Nascimento de N. Senhor Jesu Christo de 1453».
De acordo com um fragmento do Livro das Visitações feitas por Frei António de Lisboa, consta que a primeira visitação da igreja de Dornes se realizou em 22 de Junho de 1536, sendo então vigário Frei João da Cal, e que o visitador encontrou o corpo da igreja bem madeirado, a frontaria pintada, tendo no meio do cruzeiro um crucifixo com Nossa Senhora a um lado e S. João do outro, o Dia do Juízo e a Conceição de Nossa Senhora. Na mesma frontaria do cruzeiro existiam ainda dois altares, forrados a azulejos: um consagrado ao Espírito Santo, Nossa Senhora e S. João de vulto e outro a S. Sebastião (imagem pintada na parede), Santo Antão e São Paulo. No altar-mor havia já a imagem de Nossa Senhora do Pranto, com o seu filho nos braços.
Por esta altura, era o comendador-mor obrigado à fábrica da igreja e à conservação da capela e o concelho (isto é, os seus moradores) obrigado à conservação do corpo da igreja. O vigário tinha por obrigação a cura das almas e dizer missa todos os dias, recebendo o pé do altar. Mais tarde, em 1592, Frei Baltazar de Medeiros mandaria revestir o corpo da igreja de azulejos.
Já as Memórias Paroquiais de 1758 referem que, nesse mesmo ano, a igreja de Nossa Senhora do Pranto era constituída por seis altares: «o da dita Senhora, que hé o maior, e os latrais, o do Sacramento, o das Almas, a (sic) da Senhora do Rozario, o do Espirito Sancto e o do Senhor Jezus, e tem huma (sic) da Irmandade que se intitula das Almas.»

Descrição Arquitectónica A igreja de Nossa Senhora do Pranto trata-se, provavelmente, de um edifício do século XIII que, no entanto, foi sendo sucessivamente remodelado por várias campanhas construtivas, a primeira das quais operada no ano de 1453, como já foi referido. Da primitiva construção gótica restam, porém, poucos vestígios, nos quais se incluem o brasão de armas e a inscrição referente a D. Frei Gonçalo de Sousa, que se conservam na fachada principal do templo, a par de duas legendas sepulcrais existentes junto à verga do portal lateral sul.
A planimetria obedece a um esquema longitudinal, de nave única, dotada de cobertura em telhado de duas águas, na junção das quais se eleva a cruz de Cristo ladeada por dois pináculos. Do corpo do templo destaca-se, na cabeceira, o volume da capela-mor, um pouco mais baixo que a nave central e coberta igualmente por telhado de duas águas; por sua vez, do lado esquerdo, acompanhando toda a lateral norte da igreja de Nossa Senhora do Pranto, mas recuada em relação à fachada principal, salienta-se um corredor de sacristia, coberto por telhado de uma única água, e iluminado por meio de quatro janelas e de duas portas rectangulares, uma das quais localizada na fachada nascente e à qual se acede por meio de um lanço de escadas. Por sua vez, a fachada sul da igreja de Nossa Senhora do Pranto é constituída pelo correspondente portal lateral, antecedido por quatro degraus, e duas pequenas frestas protegidas por vitrais.
A fachada principal, igualmente antecedida por um lanço de quatro degraus, é constituída por um portal de verga recta sobrepujado por um entablamento de friso lavrado com rosetas e quadrângulos e ladeado por duas volutas; sobre a cornija, destacam-se duas esculturas talhadas em pedra calcária, as quais, em minha opinião, se tratam de duas imagens de um extinto Calvário, correspondentes a uma Nossa Senhora e a um São João Evangelista. Encimando o portal, existe ainda um óculo preenchido por um vitral onde se encontra representada a Pomba do Espírito Santo. Termina a fachada principal, ladeada por cunhais, numa simples empena triangular. Quanto à torre sineira, esta mantém-se independente do corpo do templo, e resulta da adaptação de uma atalaia medieval conhecida por Torre de Dornes, na qual se conservam, em três arcos campanários, os sinos da igreja.
No interior, sobre a entrada principal, eleva-se um coro-alto, enquanto que, do lado direito, se rasga na parede lateral, o baptistério, dotado da correspondente pia baptismal, obra talhada em pedra calcária, constituída por uma taça oitavada que se desenvolve a partir de um colunelo desprovido de pé ou anel. O tecto da nave central é madeirado e de três planos, enquanto que o da capela-mor é em abóbada, formada por quarenta e dois caixotões. Relativamente ao pavimento, este é em parte recoberto por mosaico cerâmico, enquanto que junto e no interior da capela-mor é lajeado de cantaria. O acesso a esta capela, é feito por intermédio de um arco cruzeiro de volta perfeita e desnível de dois degraus, enquanto que, do lado do Evangelho, se rasga a entrada de acesso à sacristia.
 
Património Integrado O interior da igreja matriz de Dornes, contrariamente aos templos que até aqui têm vindo a ser estudados, encontra-se totalmente revestido a azulejo. De facto, de entre o conjunto de monumentos religiosos existentes no concelho de Ferreira do Zêzere e dotados de património azulejar, este é o mais rico. O tapete reveste, integralmente, do chão à cobertura, o corpo da igreja, contornando os elementos arquitectónicos por meio das correspondentes cercaduras. Este é constituído pela adição linear de um padrão, que obedece a um módulo de repetição 2x2/1 o qual, de acordo com Santos Simões, data da primeira metade do século XVII. Os motivos, realizados de acordo com um esquema de estrela e cruz, denotam uma forte inspiração mudéjar combinando, sob um fundo azul, os tons de amarelo e branco. Este tipo de padrão foi muito frequente em Sevilha e de lá vieram, no princípio do século XVII, os protótipos que se reproduziram, regularmente, em Portugal até meados da centúria.
O espólio desta igreja é abundante e diversificado, caracterizando-se alguns dos seus exemplares por uma produção que se aproxima dos parâmetros da erudição tomarense. Na parede lateral sul, próximo da capela-mor, destaca-se um altar esculpido em pedra calcária, que obedece ao rigor da estética renascentista. O orago é consagrado à Santíssima Trindade (0.970m altura), imagem quinhentista esculpida em pedra, representando o típico Deus Pai em majestade, segurando Jesus Crucificado, mas já sem a correspondente Pomba do Espírito Santo. Caminhando em direcção à entrada principal do templo, seguem-se uma pequenina imagem de roca alusiva a Nossa Senhora da Conceição, assente sobre uma mísula justaposta à mesma parede, e uma pintura executada a óleo sobre tábua representativa de um Descanso na Fuga para o Egipto, precioso exemplar maneirista do último terço do século XVI, com 2.090m de altura e 0.725m de largura.
Por sua vez, na lateral norte, em frente do altar consagrado à Santíssima Trindade, localiza-se um outro retábulo renascentista, igualmente esculpido em pedra calcária, constituído por quatro nichos que ostentam as figuras dos evangelistas: São João, São Marcos, São Lucas e São Mateus, todos esculpidos em pedra e datados do século XVI, com aproximadamente 0.800m de altura. O nicho central, dedicado ao Santíssimo Sacramento, é revestido por um painel azulejar emblemático, que data provavelmente da mesma época em que foi realizado todo o revestimento azulejar do corpo da igreja, isto é, inícios do século XVII. Neste painel encontra-se representado o tema da Eucaristia, na forma de exposição da partícula divina: a hóstia, pintada de amarelo (como forma de sugerir ouro), que se destaca de um fundo radiado. A composição é acompanhada da inscrição HOC EST ENIM CORPUS MEUM, patente no friso do altar.
De acordo com a mesma ordem atrás referida para a parede lateral sul, seguem-se: uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, assente sobre uma pequenina mísula; um púlpito lavrado de rosetas e com a cruz de Cristo datado de 1544; um órgão de tubos seiscentista, recentemente restaurado, a que se acede por meio de um lanço de escadas de madeira que desce a partir do coro-alto; e por, fim, o já referido baptistério, revestido por um silhar de azulejos, de recente produção, que reproduz os exemplares da capela-mor.
O forro azulejar deste último espaço trata-se de um revestimento do tipo caixilho, em esquema simples, produzido nos tons de azul e branco, e resulta de uma encomenda que Frei Baltazar de Medeiros terá mandado executar em 1592. O interior da capela-mor é ainda enriquecido por um magnífico retábulo em talha dourada barroca, no qual se conserva a imagem milagrosa de Nossa Senhora do Pranto (0.900m altura), representada na forma iconográfica habitual da Pietá, escultura de pedra do século XVI. Por sua vez, os caixotões da abóbada são preenchidos por várias pinturas alusivas à temática da Paixão e diversas imagens de Santos que se fazem acompanhar dos seus respectivos atributos. São estas pinturas próximas da que se encontra ao centro da cobertura da nave do templo, onde se encontra representado o escudo da Rainha Santa Isabel, curiosamente invertido.
Da restante imaginária presente na igreja de Nossa Senhora do Pranto, destacam-se ainda duas imagens quinhentistas esculpidas em pedra, alusivas a Santa Catarina (0.980m altura), cuja indumentária e caracterização são notáveis, e a uma Nossa Senhora do Leite (0.745m altura), esta muito mais rude e bastante repintada. Ambas estão assentes sobre mísulas justapostas ao arco cruzeiro e localizadas, respectivamente, no lado do Evangelho e no lado da Epístola do mesmo arco.
Já no corredor da sacristia, sobre um arcaz, conservam-se um imagem de roca de Nossa Senhora do Rosário, uma Pietá, uma Nossa Senhora de Fátima, um Cristo Crucificado e um São Francisco de Assis, estes dois últimos executados em madeira policromada. Aqui existe também um pequeno lavatório de cantaria, idêntico aos até agora identificados noutros templos do concelho, mas este de talhe mais rude, apesar de remontar, muito provavelmente, ao século XVI. Numa outra dependência da sacristia, conservam-se, guardados nas respectivas caixas de madeira e convenientemente identificados e datados, os Círios de cada uma das povoações que, anualmente, participam na romaria à igreja de Nossa Senhora do Pranto de Dornes. Refira-se ainda a existência de uma lâmpada de latão seiscentista.

Estado de Conservação A partir de 1963, a Igreja de Nossa Senhora do Pranto foi alvo de várias campanhas de conservação e restauro, levadas a cabo pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. As intervenções desenvolvidas por esta entidade prolongar-se-iam até ao ano de 1970, sabendo que entre 1959 e 1964 decorreriam as campanhas de reparação da cobertura. No entanto, a partir do madeiramento que forra a nave central do templo, pude detectar algumas zonas de escorrência de humidade; por sua vez, também a abóbada da capela-mor denuncia várias manchas decorrentes de infiltrações que se processam a partir da cobertura. Desta forma, torna-se urgente a revisão do sistema de impermeabilização e escorrência das águas pluviais, sob o risco de se estar a comprometer o estado de conservação de todo o património integrado deste templo.

Cantaria: Todos os elementos de cantaria foram produzidos em pedra calcária. Pelo exterior, a situação mais preocupante centra-se no pórtico principal, sobretudo ao nível do entablamento, em cujo friso é visível uma fractura bastante pronunciada. Por sua vez, a cornija apresenta várias lacunas volumétricas, enquanto que nas imagens que a sobrepujam são sobretudo visíveis fenómenos de colonização biológica e de enegrecimento, proporcionado pela escorrência das águas pluviais, assim como um desgaste já bem evidente do modelamento escultórico. No interior, quer o material pétreo dos altares laterais, quer a cantaria do púlpito, evidenciam algumas manchas de enegrecimento decorrentes da acumulação de humidade no templo.

Imaginária: O estado de conservação da imaginária revela-se aparentemente estabilizado. Não obstante, a maioria dos exemplares quinhentistas apresenta-se bastante repintada, como é o caso da Nossa Senhora do Leite ou das imagens alusivas aos quatro Evangelistas. As situações mais preocupantes encontram-se na sacristia, e dizem respeito a São Francisco de Assis e ao Cristo Crucificado, imagens executadas em madeira policromada, que se encontram bastante fragilizadas, quer ao nível do suporte, quer ao nível da superfície policroma.

Talha: O estado de conservação da talha dourada do retábulo-mor revela-se aparentemente estabilizado. Porém, o diagnóstico de possíveis patologias afectantes desta estrutura carece de observação mais atenta.

Pintura: As obras pictóricas existentes neste templo resumem-se à tábua pintada a óleo do Descanso na Fuga para o Egipto e à pintura dos caixotões da abóbada da capela-mor. No primeiro caso, foram detectadas, na zona de junção das tábuas do suporte, fissuras bastante pronunciadas ao nível da camada pictórica, o que significa que a pintura não se encontra estabilizada relativamente ao microclima do interior do templo. O aparecimento de fissuras e destacamentos decorre, na maioria das vezes, de oscilações volumétricas do suporte, as quais acompanham, por sua vez, as oscilações termo higrométricas do espaço envolvente, de tal forma que maiores índices de humidade conduzem a um aumento da volumetria das fibras, enquanto que a sua contracção é condicionada pela diminuição desse mesmos índices de humidade e consequente aumento da temperatura. Por sua vez, a superfície pictórica, ao não conseguir acompanhar as oscilações do suporte, acaba por fender e destacar, perdendo-se irremediavelmente.
Já na pintura mural são visíveis várias zonas de enegrecimento, proporcionadas pela escorrência e infiltração de humidades que se processa a partir da cobertura, o que dá origem ao desgaste e ao destacamento da correspondente superfície pictórica.
 
Património Azulejar: O tapete azulejar que reveste o interior da igreja matriz de Dornes, encontra-se aparentemente estabilizado, não sendo detectados danos relevantes como sejam destacamentos, lacunas ou omissão de elementos. No entanto, no limite da cobertura, alguns elementos manifestam, pontualmente, a existência de lacunas volumétricas, embora não tenha sido possível averiguar em primeira observação (dada a posição ocupada por estes azulejos), se a situação de destacamento progride. Caso tal se verifique, significa que a correspondente causa de degradação ainda se mantém, o que, nesta área, poderá ser decorrente de uma deficiência no sistema de cobertura.
De facto, uma cobertura que não se encontre totalmente estanque, poderá deixar passar infiltrações de humidade, que acabam por interagir quimicamente com o vidrado e chacota dos azulejos, degradando-os. Como se sabe, os limites geométricos destes elementos, ao serem zonas mais frágeis, são as áreas primeiramente deterioradas, evidenciando, geralmente, situações de lacuna que, nos casos mais graves, poderão conduzir à perca de todo o azulejo.
Junto das frestas que iluminam o interior do corpo da igreja, a situação acaba por ser mais grave, uma vez que nesta área, apesar do isolamento proporcionado por meio do vitral, existe uma maior sensibilidade em relação às variações termo higrométricas do exterior. Assim sendo, nos elementos azulejares posicionados junto destas aberturas, acabam por ser mais evidentes as situações de lacuna, uma vez que a chacota e o vidrado, ao responderem diferentemente a tais oscilações de temperatura e humidade, originam destacamentos mais ou menos superficiais. Pelo exposto, deve ser averiguada a estabilidade destes elementos, de maneira a determinar se as correspondentes causas de degradação se mantém ou não activas e cujas possíveis origens acabam de ser apontadas.
Em relação aos azulejos que revestem as paredes da capela-mor, estes revelam, em toda a extensão do tapete, lacunas pontuais ao nível do vidrado e da chacota. No entanto, estes elementos apresentam-se estabilizados com o microclima interior, dado que não são verificadas situações de destacamento. Deve ser referido, porém, que em 1958, no decorrer das obras de restauro desenvolvidas pela DGEMN, foi proposta a remoção do forro azulejar da capela-mor e sua substituição por outros exemplares idênticos existentes no Armazém do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

Grau 3: Edifício que denuncia um estado de conservação razoável.

Intervenções Realizadas
 
 
Cronologia: 1953 / 1958 - Arranjo do adro e da escadaria de acesso ao templo. Demolição e reconstrução da fachada principal, incluindo pórtico e rosácea; 1959 - Reparação das coberturas e reconstrução da escadaria do pórtico principal; 1960 / 1964 - Reparação das coberturas. Consolidação dos muros (incluindo cintagem em betão armado) e pavimentos. Apeamento, assentamento e/ou substituição de azulejos. Demolição e desmontagem de alvenarias para abertura e alargamento de vãos com reaproveitamento de cantarias; 1965 / 1966 - Restauro dos altares e pavimentos do baptistério. Restauro do revestimento em azulejos da capela-mor e baptistério; 1970 - Instalação eléctrica.
 
 

Bibliografia
 
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BAIÃO; António; Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere; Imprensa Nacional; Lisboa; 1918; páginas 8, 18 a 22, 25, 50 e 51, 160 a 162, 229 e 230, 339 Em Apêndice, Documentos XIII: Visitação das Igrejas do Beco e Dornes (p.26)

CARDOSO; Padre Luis; Diccionario Geografico (...); 44 Volumes; Biblioteca Real; 1758-1832; Volume 13; Nº 31; Fólios 185 a 190

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