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Igreja Matriz de Nossa Senhora da Graça de Águas Belas

 
 

Ficha Técnica
 
 
Característica Arquitectura Religiosa

Classificação Igreja
 
Localização Águas Belas

Especialista Dr.ª Ana Torrejais
 
 
Referência a_Belas_01

Propriedade Bispado de Coimbra
 
Enquadramento Localiza-se no centro da actual povoação de Águas Belas. O portal principal é antecedido por um amplo adro, no qual costumam ser realizadas as festas anuais.

Notícias Históricas A igreja paroquial de Nossa Senhora da Graça trata-se de um templo construído entre 1894 e 1897, sob o patrocínio do banqueiro Conde de Burnay. Consta que este nobre precisava dos votos dos aguabelenses para ser eleito deputado, tendo então contribuído com 50% do numerário necessário à construção da actual igreja, com vista a substituir o antigo edifício religioso que se localizava na sede da velha vila de Águas Belas.
No que se refere ao templo primitivo, António Baião cita José da Mota Ribeiro, pároco de Águas Belas, segundo o qual já em 1758 o orago da paroquial era de invocação a Nossa Senhora da Graça e tinha, por esta mesma altura, cinco altares: um da Senhora da Graça; outro do Espírito Santo; outro de S. Bartolomeu e Almas; o quarto de Nossa Senhora do Rosário e o quinto de Jesus. Do extinto templo, apenas prevalece um único registo referente a um desenho de Alfredo Keil datado de 1896.

Descrição Arquitectónica Trata-se de um edifício do século XIX que, no entanto, tem sido sucessivamente remodelado por várias campanhas de obras públicas. Apresenta-se como uma construção de carácter eclético, em que as marcas de inspiração clássica transparecem de forma tímida no arco de volta perfeita do portal principal. Possui planta longitudinal de nave única e cobertura em telhado de 2 águas. Destacam-se do corpo central do templo dois volumes, os quais correspondem a duas salas de sacristia que ladeiam a capela-mor. Na fachada principal foi adossada uma torre sineira de marcada verticalidade, na qual se rasga o portal principal, de linhas simples, sendo todo este volume avançado em relação ao corpo central do edifício.
Acede-se ao interior do templo, ou por meio da entrada principal, ou por meio de duas entradas laterais. Antecede o acesso principal uma pequena câmara, espaço vazio resultante do avanço da torre sineira em relação ao corpo central do edifício. Já no interior, e sobre a entrada principal, ergue-se o coro-alto, ao qual se acede por meio de um lanço de escada localizado do lado esquerdo do portal. Do lado direito, encontra-se uma câmara que funciona como baptistério, dotado da correspondente pia baptismal, provavelmente coetânea da época de construção do templo.
O tecto do corpo central, bem como o da capela-mor, é madeirado e de 3 planos. Por sua vez, o pavimento encontra-se coberto por mosaico cerâmico, existindo um passadiço de lajes que se estende desde a entrada principal até à capela-mor. O acesso a esta capela é realizado por meio de um arco cruzeiro de volta perfeita e um lanço de três degraus.

Património Integrado O interior do templo é dotado de dois altares laterais, em talha policromada, sendo o do lado do Evangelho dedicado a Nossa Senhora do Rosário. Trata-se de uma belíssima imagem do séc. XVIII, de talhe erudito, e é muito provavelmente a ela que se refere o pároco José da Mota Ribeiro em 1758. Já do lado da Epístola, o altar é dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, imagem de produção recente. O altar-mor, obra seiscentista, é proveniente da antiga igreja, e nele se encontra a padroeira: Nossa Senhora da Graça, imagem de porte eclético, a qual, coroada, ostenta na mão um ceptro, símbolo do seu poder, e segura nos braços o menino Salvator Mundi, igualmente coroado. É esta imagem ladeada por duas esculturas representativas de Santo António com o Menino e de S. Francisco de Assis.
Também na antecâmara do portal principal se preservam, em dois nichos laterais, duas esculturas de pedra quinhentistas, provenientes da primitiva igreja, e as quais conservam ainda vestígios de policromia. Representam elas S. Judas Tadeu (0.680m altura) e S. Bartolomeu (0.705m altura), cujo talhe rude e as proporções atarracadas denunciam a sua produção popular. Para além destas, conserva-se ainda na sacristia um Sto. António (0.730m altura) do século XVI, esculpido em pedra, e igualmente resgatado ao templo anterior.
Por fim, deve ser referido que, numa das últimas campanhas de intervenção neste templo, foi aplicado às paredes interiores um silhar de azulejos de produção industrial, que dificilmente se enquadra no esquema decorativo original. Apresenta o referido silhar uma altura de 8 azulejos, em tons de azul e branco, os quais se repetem de acordo com um módulo de 2X2/2 unidades. É o tapete azulejar delimitado por um friso no limite superior e por cercadura no limite inferior.
Do seu espólio ressalta ainda a magnífica custódia em prata dourada cinzelada, do século XVIII. Trata-se de uma peça muito rica, sobrepujada por uma cruz de esmeraldas. Tem, aproximadamente, setenta esmeraldas de vários tamanhos, cento e vinte e oito brilhantes, quatrocentos e catorze diamantes e duzentas e sessenta e oito crisálidas e topázios. Tem de altura 0.625m, largura no hostiário 0.295m e pesa 5.500 kg. De acordo com Maria Emília Baptista, esta custódia terá sido ofertada por uma piedosa fidalga do extinto solar do morgado de Águas Belas, a qual, tendo-lhe morrido uma filhinha na flor da idade, resolveu fundir todo o seu ouro e assim mandar fazer a preciosa peça. No templo guardam-se ainda várias peças de prata, de reduzido valor artístico: uma cruz processional, os castiçais de uma banqueta, um cálice e várias jarras.

Estado de Conservação Edifício reabilitado, com manutenção regular. Aparentemente, o estado de conservação do imóvel e do correspondente património integrado revela-se estabilizado. No entanto, as imagens de S. Judas Tadeu e de S. Bartolomeu carecem de intervenção urgente.
 
Classificação: Grau 4 - Edifício reabilitado ou reconstruído.
 
 

Bibliografia
 
ALMEIDA; Dr. José António Ferreira de (Coord.); Tesouros Artísticos de Portugal; Lisboa; Selecções do Reader’s Digest; 1976; página 57

BAIÃO; António; Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere; Imprensa Nacional; Lisboa; 1918; página 308

MALHEIRO; Bartolomeu de Macedo; Notícias das Igrejas do Bispado de Coimbra; Academia Real da História Portuguesa; 1726; Fólios 199 (v) a 200

SEQUEIRA; Gustavo de Matos (dirc.); Inventário Artístico de Portugal; Volume III: Distrito de Santarém; Lisboa; Academia Nacional de Belas Artes; 1949; Página 37