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Igreja Matriz de Nossa Senhora da Graça das Areias

 
 
 
Ficha Técnica
 
 
Característica   Arquitectura Religiosa

Classificação   Igreja 
 
Localização   Areias

Especialista   Dr.ª Ana Torrejais
 
Morada   Freguesia de Areias
 
 
Referência   a_Areias_04

Património Classificado   IIP Dec. Nº 33587, DG63 de 27 de Março de 1943

Propriedade   Bispado de Coimbra
 
Enquadramento   Localiza-se no centro da actual povoação de Areias, sendo o portal principal antecedido por escadaria de 2 lanços. O espaço envolvente é ocupado pelo respectivo adro paroquial, no qual costumam ser realizadas as festas anuais.

Notícias Históricas   A primitiva igreja matriz desta povoação terá sido fundada no século XV, havendo já notícias da sua existência em 1489. Esta data corresponde, de acordo com António Baião, ao início da construção do templo, mandado erigir pelos fregueses, uma vez que a capela-mor foi mandada fazer em 1502 por D. Manuel, tendo sido a sacristia terminada em 1510.
A actual igreja é, porém, uma reconstrução do século XVI (c. 1548), dirigida pelo célebre arquitecto biscainho João de Castilho, responsável pelas grandes obras da Ordem de Cristo na época da reforma empreendida por Frei António de Lisboa.
A propósito da fundação da igreja matriz de Areias, existe a seguinte lenda, a qual é referida por Carvalho da Costa: «Tendo sido escolhido o local para a construção da igreja e aí colocada uma imagem de Nossa Senhora, esta de noite de lá desaparecia para aparecer no lugar onde hoje está a igreja matriz. Por isso acontecer, riscaram os moradores do lugar o solo onde a imagem surgia, aparecendo depois o risco cercado por um valadinho de Areia. Daí o nome de Areias dado à povoação».
Por sua vez, o Santuário Mariano oferece-nos uma outra versão: «Chamou-se sempre esta igreja, desde sua antiga fundação & principios, Santa Maria das Arenas da Villa das Pias, & esta invocação procederia das douradas areas de que abundão aquellas ribeyras &, como estas areas sahem se seus montes, poderia haver naquelles antigos tempos mineraes deste precioso metal &, por esta causa alludindo a ellas, lhe darião àquella santissima imagem o titulo & invocação das Areas ou do lugar aonde se criavão & se descobrião muytas areas de ouro».

Descrição Arquitectónica   A igreja de Nossa Senhora da Graça trata-se de um edifício do século XV que, no entanto, foi sendo sucessivamente remodelado por várias campanhas construtivas. Acompanha, assim, várias influências estilísticas - renascentistas, maneiristas, barrocas - as quais se manifestam sobre uma mesma base estrutural gótica, denunciada essencialmente pelo arranjo espacial do interior do templo e sua planimetria. Esta obedece a um esquema longitudinal, composto por três naves de seis tramos cada uma. As naves laterais, ligeiramente mais baixas que o corpo central, possuem cobertura em telhado de uma água, enquanto que a nave principal apresenta cobertura em telhado de duas águas.
Na fachada principal, e saliente relativamente ao corpo central, foi adossada uma torre sineira, subdividida por três registos, sendo o inferior constituído por uma galilé formada por três arcos de volta perfeita assentes em colunas jónicas; esta galilé, de acordo com a maioria dos autores, é atribuída a João de Castilho. No segundo registo foi colocado um nicho com baldaquino e, sobre este, rasgado um grande janelão rectangular que ilumina o coro-alto. No último registo encontram-se os campanários, rematados por uma pequena empena triangular ladeada por dois pináculos.
No interior, o espaço tripartido é dividido por meio de arcos de volta perfeita assentes sobre colunas jónicas, enquanto que, na ligação com o cruzeiro, os arcos descarregam sobre capitéis assentes em mísulas, de clara inspiração manuelina. Sobre a entrada principal eleva-se um coro-alto, o qual absorve o primeiro tramo das naves. Acede-se a este coro por meio de um lanço de escadas colocado do lado esquerdo da entrada, enquanto que, do lado direito, está o baptistério, dotado da correspondente pia baptismal, espaço este demarcado por meio de gradeamento.
Todo o espaço interior é bastante iluminado, não só por meio do portal principal e portais laterais do templo, mas também pelo conjunto de frestas decoradas a vitral que se rasgam ao longo de todo o corpo da igreja, dez no total. O tecto da nave central é madeirado e de três planos, enquanto que o tecto das naves laterais é apenas de um plano. Por sua vez, a cobertura do coro-alto, assim como a da capela-mor, é em abóbada relevada, sendo que nas pedras de fecho foram esculpidos os símbolos de El-Rei D. Manuel, nomeadamente, o escudo coroado e a cruz de Cristo.
Relativamente ao pavimento, este é lajeado, existindo um passadiço de mosaico cerâmico que se prolonga desde o portal principal até à capela-mor. O acesso a esta capela, igualmente iluminada por meio de duas frestas laterais, é feito por intermédio de um arco cruzeiro de volta perfeita e um lanço de três degraus. Nas paredes interiores, do lado do Evangelho e do lado da Epístola, rasgam-se as entradas de acesso a duas salas de sacristia.Perto da capela mor, do lado do Evangelho e adossado ao fuste da última coluna, encontra-se um púlpito de delicado lavor, obra renascentista de fuste delgado e cálice circular, sendo o friso superior preenchido por querubins.

Património Integrado   Existem na igreja matriz de Areias vários altares, construídos em épocas distintas e consagrados a diferentes oragos. Assim sendo:
Na parede lateral sul conservam-se dois retábulos. O primeiro é em talha policromada e consagrado ao Sagrado Coração de Jesus. O segundo, esculpido em pedra, foi produzido no século XVII, e ainda preserva vestígios de policromia. Neste retábulo encontram-se várias imagens: S. Francisco de Assis (no nicho central); S. Antão (0.645m altura), imagem quinhentista esculpida em pedra, de talhe popular (no nicho da esquerda); S. Sebastião, também ela bastante rude (no nicho da direita); Santa Ana ensinando a ler a Nossa Senhora, imagem em madeira policromada do século XVIII; Cristo Ressuscitado, igualmente em madeira policromada.
Na parede lateral norte existem igualmente dois retábulos. O primeiro é em talha policromada, igual ao que se encontra de frente, na parede oposta; é este altar consagrado a Nossa Senhora de Fátima. O segundo, esculpido em pedra, ostenta numa cartela a data de 1596 e é consagrado ao Senhor das Angústias. Representa este retábulo um Calvário, constituído por uma imagem de madeira de Cristo na Cruz, assente sobre um Gólgota esculpido em pedra. Por sua vez, este conjunto escultórico é enquadrado por uma pintura realizada a óleo sobre tela, na qual estão representados Nossa Senhora e S. João Evangelista. Também na lateral norte se conserva, no interior de uma vitrina, uma imagem do Senhor dos Passos, de grandes dimensões.
Ainda no arco cruzeiro existem outros dois altares, cujos respectivos retábulos de talha dourada se encontram hoje irremediavelmente perdidos, por terem sido removidos no ano de 1979/1980 no decurso de um intervenção da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Não obstante, o do lado do Evangelho preserva uma tela pintada a óleo, a qual representa o tema do Pentecostes, e uma imagem de Nossa Senhora das Dores. Já o altar do lado da Epístola ostenta uma Epifania pintada a óleo sobre tela, assim como imagem de S. José com o Menino.
Por sua vez, na capela-mor preserva-se um magnífico retábulo em talha dourada barroca, no qual não se encontra presente a imagem da padroeira mas tão somente duas imagens de pequenas dimensões, representativas de Nossa Senhora e de Santo António com o Menino. Na minha opinião, a imagem padroeira de Nossa Senhora da Graça corresponde à imagem que hoje se encontra no baptistério, em péssimo estado de conservação. Esta imagem, bastante mutilada, representa uma Nossa Senhora com o Menino, obra executada em madeira policromada, que parece corresponder à referida por Frei Santa Maria: «He esta sagrada imagem de estatura avultada, porque terá seis para sete palmos & tem em seus braços ao (sic) Menino Deos, naquela fórma em que se costumão obrar as Imagens de Nossa Senhora da Graça; he de escultura de madeyra, muyto bem estofada».
Do período barroco são os frescos de ramagens azuis, decorados a pintura de brutesco, que preenchem os espaços entre as nervuras da abóbada da capela-mor.
Quanto às obras pictóricas e, para além das já referidas, existem ainda três telas executadas a óleo, de traço popular, as quais representam Nossa Senhora com o Menino envolta por um coro de Anjos (lateral sul), Aclamação de Jesus Ressuscitado e S. Miguel no Purgatório (ambas na lateral norte).
Por fim, e relativamente ao património azulejar, refira-se que apenas a capela-mor deste templo foi revestida por painéis de azulejos de padrão seiscentistas, apresentando o tapete 66 unidades de altura. Predomina o azul e o amarelo, sendo o efeito decorativo reforçado por ornatos brancos, como elos de cadeia, que determinam grandes linhas diagonais.
O tapete formado por estes azulejos tem por base um padrão 4X4, que utiliza dois elementos distintos. Obedece, portanto, ao esquema 4X4/2, que permite obter repetições de 16 unidades. No entanto, na Igreja Matriz de Areias os dois elementos, característicos deste padrão, foram isolados de modo a constituírem duas repetições independentes de 2X2/1, que o ladrilhador conjugou entre si. De acordo com Santos Simões, este foi um tipo de padrão que esteve muito em voga a partir de 1640, produzindo-se regularmente durante mais de vinte anos.
Guarda-se ainda na sacristia um Prato de Oferta (0.410m diâmetro), de latão, com as clássicas inscrições e, no centro, seis romãs estilizadas.

Estado de Conservação   Apesar de, no passado, este templo ter sido por várias vezes intervencionado pela DGEMN e gozar, actualmente, de uma manutenção regular, a situação do seu estado de conservação e correspondente património integrado encontra-se longe de estar estabilizada. Para tal contribui a excessiva humidade que se concentra no interior do imóvel, resultado de infiltrações várias provenientes, quer da cobertura, quer do próprio pavimento, onde se chega a acumular grande quantidade de água nos dias chuvosos. Por esta razão, é necessária uma revisão urgente do sistema de cobertura, a par de uma drenagem eficaz dos terrenos de assentamento do imóvel.

Cantaria: Executada em pedra calcária, exteriormente a cantaria deste templo encontra-se bastante deteriorada, sobretudo na fachada sul onde o impacto eólico é maior. Tal erosão, denunciada pelos fenómenos de alveolização e arenização que atingem alguns elementos, é sobretudo evidente ao nível dos capitéis das colunas da galilé castilhiana. No interior do templo, e em virtude da já referida infiltração de humidades, as situações mais preocupantes manifestam-se sobretudo ao nível dos retábulos pétreos e cantaria da abóbada do coro-alto, onde a erosão e desgaste dos elementos escultóricos é mais evidente. São também visíveis alguns rebentamentos de salitre ao nível do estuque das paredes.

Imaginária: Como acontece em qualquer igreja, a imaginária que integra o espólio da matriz de Areias engloba várias épocas, situação esta que, obviamente, se irá reflectir no estado de conservação de tais peças. Assim sendo, a par da imaginária de produção recente, convivem outros exemplares, produzidos em épocas muito mais recuadas e geralmente executados em madeira ou pedra. Estas imagens são as que oferecem maior preocupação, por se encontrarem, maioritariamente, em pior estado de conservação. Tal é o caso do S. Saturnino quinhentista ou das esculturas barrocas de Santa Ana e de Nossa Senhora com o Menino que, carecendo de intervenção urgente, estão dependentes de um plano estruturado de conservação, com vista à sua salvaguarda.

Talha: Em relação ao estado de conservação do altar-mor, é importante registar que, em virtude da imensa humidade da parede sobre a qual a talha dourada deste retábulo assenta, danos irremediáveis estão a ser introduzidos na estrutura do mesmo. Contudo, e uma vez que este retábulo se encontra completamente embebido na parede, não foi possível verificar como se encontra, pelo reverso, tal estrutura. No entanto, são já visíveis algumas zonas de empolamento e destacamento ao nível da camada metálica. Relativamente ao altares laterais existentes no corpo da igreja, registam-se igualmente algumas situações pontuais de destacamento ao nível da camada policroma.

Pintura: Todas as pinturas existentes na igreja matriz de Areias, realizadas a óleo sobre tela ou sobre tábua, e em resultado da presença excessiva de humidade neste local, revelam, de forma mais ou menos pronunciada, um enegrecimento geral da composição, acompanhado pelo aparecimento de manchas, empolamentos e desgaste/ destacamentos ao nível da superfície pictórica. Quanto aos frescos da abóbada da capela-mor, também aí são visíveis algumas zonas de desgaste/destacamento da pintura.

Património Azulejar: Os azulejos que preenchem as paredes da capela-mor da igreja de Nossa Senhora da Graça de Areias, foram pela primeira vez alvo de uma intervenção de conservação e restauro entre os anos de 1979 e 1980, numa acção desenvolvida pela DGEMN, e que contou com a consolidação e substituição dos referidos azulejos. Por esta razão, não se verificam danos exteriores relevantes, como sejam empolamentos, destacamentos ou zonas de fractura preocupantes, parecendo os azulejos estabilizados com o microclima interior.

Classificação: Grau 3. Edifício que denuncia um estado de conservação razoável.

Intervenções Realizadas   Entidade responsável: Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais

Cronologia: 1952 / 1953 - arranjo do adro da igreja; 1967 / 1969 - beneficiação e restauro das coberturas, incluindo consolidação e/ou substituição das nervuras de cantaria da abóbada da capela-mor. Restauro da fachada principal, com supressão de um anexo ao corpo da torre; 1974 / 1979 - beneficiação e restauro das coberturas; 1975 / 1980 - restauro do retábulo do altar-mor e consolidação e substituição dos azulejos da capela-mor e da sacristia. Restauro dos altares laterais e remoção dos altares de madeira que ladeavam a capela-mor
 
 
 
Bibliografia  
 
ALMEIDA; Dr. José António Ferreira de (Coord.); Tesouros Artísticos de Portugal; Lisboa; Selecções do Reader’s Digest; 1976; página 100

BAIÃO; António; Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere; Imprensa Nacional; Lisboa; 1918; páginas 61 e 62. Em Apêndice, Documentos VIII: Visitação da Igreja das Areias (p.19) e XIV: Visitação da Igreja das Areias (p.30)

CARDOSO; Padre Luís; Diccionario Geografico (...); 44 Volumes; Biblioteca Real; 1758-1832; Volume 42; Nº 22; Fólio 10

COSTA; Padre António Carvalho da; Corografia Portugueza (...); Tomo III; Lisboa; Oficina Real Deslandesiana; 1712; Fólios

LEAL; Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho; Portugal Antigo e Moderno (...); 11 Volumes; Lisboa; Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia , 1873 a 1882; 1º volume; Página 238

SEQUEIRA; Gustavo de Matos (dirc.); Inventário Artístico de Portugal; Volume III: Distrito de Santarém; Lisboa; Academia Nacional de Belas Artes; 1949; Página 38

SIMÕES; J. M. dos Santos e Emílio Guerra de Oliveira; Azulejaria em Portugal – século XVII; Volume 2; Fundação Calouste Gulbenkian; 2ª Edição; Lisboa; 1997; página 162.