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Capela de São Pedro de Castro na Serra de São Pedro de Castro, Ferreira do Zêzere

 
 
 
Ficha Técnica
 

Característica Arquitectura Religiosa

Classificação Capelas
 
Localização Ferreira do Zêzere
 
 
Especialista Dr.ª Ana Torrejais
 
Referência a_Zezere_34
 
Património Classificado Sim. IIP Dec.Nº 30762, DG225 de 26 de Setembro de 1940
 
Propriedade Bispado de Coimbra
 
Enquadramento A capela de São Pedro de Castro localiza-se no cimo de um morro que se ergue à beira do rio Zêzere e ao qual apenas se acede por meio de um caminho florestal em terra batida. A capelinha é rodeada por um amplo adro calcetado, onde foi construído, anexado ao templo, um telheiro que serve de apoio à realização das festas anuais em honra do santo padroeiro.
 
Notícias Históricas É desconhecida a data de fundação e construção deste templo; no entanto, e de acordo com algumas narrativas, a capela de São Pedro de Castro terá sido edificada sobre um antigo castro romano. De facto, na fachada principal conserva-se ainda uma lápide romana inscrita, cuja tradução é apresentada por Carlos Batata e Paulo Arsénio na sua Carta Arqueológica do Concelho de Ferreira do Zêzere: “Aos Deuses Manes. A Antónia Máxima, Antónia Modesta, sua mãe, e Lúcio Abílio Celer, seu marido, mandaram fazer em memória.”
No século XV terá sido reedificada, no mesmo local, uma nova capela, na construção da qual foram empregues alguns dos elementos do primitivo templo. O padre António Carvalho da Costa refere ainda que «ha tradição que no sitio da Castanheyra na borda do rio Zezere, onde chamão o Mosteyro, esteve hum Convento de Frades Bernardos, o qual se extinguio, & que das suas pedras se fizera a dita Ermida».
De acordo com António Baião, existia um ermitão encarregue da limpeza e conservação da capela de São Pedro de Castro que, em 1571, era Brás Fernandes e, em 1576, Domingos Fernandes, provavelmente parente do anterior. Frei Francisco Aires, prior de Ferreira, atestou o bom comportamento dos dois, que tinham para ajuda da sua sustentação as esmolas dos fiéis que podiam pedir na vila e arredores.
Ainda relativamente à fundação da capela de São Pedro de Castro, existe uma lenda muito curiosa, registada por Sá Flores no seu Lendas, Contos e Poesia de Ferreira do Zêzere, que passo a transcrever: «Situada junto ao rio, a meia dúzia de quilómetros da Vila de Ferreira do Zêzere, no cimo dum dos mais altos montes da zona, encontra-se a capela de S. Pedro. (…) Segundo parece, tudo foi obra de um casal de irmãos, de seus nomes Pedro e Casta, que apareceram por ali e, não tendo onde abrigar-se, idealizaram construir a capela. Pedras havia muitas, mas ferramentas para as arrancar e abrir os caboucos é que não existiam. Mas, logo apareceram, entre elas, um arado de ouro, utensílio que viria a tornar-se fundamental para a construção. Era ele que abria os alicerces, arrancava a pedra, remexia a terra para fazer o barro e até andava sozinho, sem ninguém a dirigi-lo e a empurrá-lo. Terminada a construção da Capela, que segundo parece não demorou muito tempo, os dois irmãos decidiram que não podiam viver ali juntos. Pensavam eles que “a estopa ao pé do lume faz faísca”, e não foi difícil o entendimento para a separação. O Pedro continuou na capela, enquanto a Casta foi viver para uma caverna dum penedo existente numa serra próxima, à qual foi dado o seu nome. Quanto ao arado de ouro, e na impossibilidade de o dividirem, atiraram-no pelo monte abaixo, indo afundar-se no rio (…). Ao vê-lo desaparecido, Pedro olhou para a irmã e murmurou:
- Só a Deus cabe alguém poder tirá-lo.
Consta que mais tarde um homem que por ali andava a pescar trouxe o arado de ouro preso no seu anzol, e que, quando o viu à tona da água, tão amarelinho, tão bonito e o vai para agarrar, o viu fugir de novo para o fundo do rio. Entristecido por ver fugir-lhe tão grande tesouro, despiu-se e atirou-se à água em busca do mesmo.
E conseguiu encontrá-lo. Só que, quando estava próximo do cimo da água, julgando-se já livre de perigo, pensou cheio de contentamento e convicção:
- Quer Deus queira, quer Deus não queira ele já cá vai!
Mas tais palavras não eram ditas quando aparece um peixe que se envolve com o arado e o empurra de novo para o fundo. Novas tentativas foram feitas, mas ninguém mais conseguiu ver o arado de ouro. Segundo a lenda, se o pescador, em vez de ter pronunciado aquelas palavras, tivesse agradecido a Deus tal achado, teria tido para sempre em seu poder o tesouro, o tal arado de ouro que, no caso desta lenda ser verdadeira, se encontra hoje a centenas de metros de profundidade, devido à barragem do Castelo do Bode».
Segundo as Memórias Paroquiais de 1758, a ermida de S. Pedro de Castro era local frequente de romagem, à qual acolhiam muitos peregrinos várias vezes ao ano, mas sobretudo no dia da comemoração do orago, no dia de São Miguel e no dia de Todos os Santos.

Descrição Arquitectónica A capela de São Pedro de Castro trata-se de um templo de inspiração gótica, visível sobretudo no pórtico em arco quebrado que se rasga na fachada principal. É este antecedido por uma escadaria de lanço reduzido e encimado por uma fresta, do lado direito da qual se localiza a já citada lápide romana. A fachada principal termina numa empena triangular desigual, elevando-se sobre o beiral esquerdo um pequeno campanário, hoje disfuncional.
O templo é de planta longitudinal e nave única, dotado de cobertura em telhado de duas águas e de uma outra entrada na lateral direita. Do corpo central salienta-se o volume correspondente à capela-mor, dependência mais baixa e estreita que a nave, dotada de fresta na lateral esquerda e com cobertura em telhado de três águas.
O interior caracteriza-se pela sua parca luminosidade e despojamento decorativo. O acesso à capela-mor é realizado por intermédio de um arco cruzeiro de verga recta. Neste espaço, os muros não se encontram rebocados, sendo visível o aparelho construtivo, executado em alvenaria de natureza calcária. Aqui, o pavimento é lajeado e recoberto por madeiramento, enquanto que na nave foi utilizada uma argamassa cimentícia; por sua vez, em toda a extensão do templo, a cobertura é madeirada e de três planos.

Património Integrado A riqueza decorativa deste templo concentra-se na capela-mor, onde convivem exemplares das mais distintas épocas. Comece-se com a própria mesa de altar, a qual foi revestida por azulejos mudéjares de aresta ou cuenca, técnica de importação granadina que conheceria grande difusão no território português a partir dos finais do século XV. Sobre o altar eleva-se um retábulo de talha barroca dourada e policromada, conservando-se, no nicho central, uma imagem de pedra quinhentista representativa de São Pedro de Castro (0.640m altura), vestido como apóstolo, e que nas mãos segura um livro e um crucifixo.
Ao longo das paredes da capela-mor dispõem-se oito tabuinhas pintadas a óleo, cujas composições são alusivas a milagres operados pelo Santo entre os séculos XVII e XIX. Para além deste ex-votos, existem ainda três gravuras muito interessantes onde S. Pedro é representado.
 
Estado de Conservação As principais patologias diagnosticadas neste templo decorrem de intervenções mal direccionadas. Pelo exterior, a cantaria do portal principal foi recoberta por uma camada de tinta plástica; por sua vez, a lápide romana que sobrepuja o mesmo portal denuncia uma zona de fractura bastante pronunciada, a qual foi entretanto corrigida por meio de uma argamassa cimentícia.
Pelo interior, o tapete azulejar que reveste o altar-mor denuncia, pontualmente, destacamentos mais ou menos profundos, bem como situações de eflorescências salinas. A par disso, nalguns exemplares é manifesto o desgaste volumétrico das arestas, cujas lacunas foram reconstituídas por meio de cimento. O mesmo material foi utilizado como argamassa de preenchimento nas juntas das paredes interiores da capela-mor, impermeabilizando-as; como consequência, as trocas gasosas com o exterior processam-se agora directamente a partir dos blocos pétreos dos muros, o que pode conduzir ao aparecimento de danos graves nas paredes estruturantes deste espaço, como sejam zonas de fissura, fractura e, inclusivamente, fenómenos de colonização biológica decorrentes da concentração de humidades.
Relativamente aos ex-votos existentes na capela-mor, em algumas destas obras a mancha pictórica já quase desapareceu por completo, em virtude do desgaste e destacamentos vários que afectam, em maior ou menos extensão, o registo composicional. Destacamentos e enegrecimento do suporte decorrentes da acção da humidade são também evidentes na talha do retábulo-mor.

Grau 3 - Edifício que denuncia um estado de conservação razoável.
 
 

Bibliografia
 
ALMEIDA; Dr. José António Ferreira de (Coord.); Tesouros Artísticos de Portugal; Lisboa; Selecções do Reader’s Digest; 1976; página 266

BAIÃO; António; Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere; Imprensa Nacional; Lisboa; 1918; páginas 9 e 121

CARDOSO; Padre Luis; Diccionario Geografico (...); 44 Volumes; Biblioteca Real; 1758-1832; Volume 15; Nº 52; Fólios 319 a 324

COSTA; Padre António Carvalho da; Corografia Portugueza (...); Tomo III; Lisboa; Oficina Real Deslandesiana; 1712; Fólios

LEAL; Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho; Portugal Antigo e Moderno (...); 11 Volumes; Lisboa; Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia , 1873 a 1882; Volume 3; Página 175